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SIM E NÃO NA HORA CERTA!

Rosa V. Pantoni
Maternal

Pais e educadores dando limite e ouvindo as crianças

 

Quando é preciso colocar limites para as crianças? Muitos pais e educadores ficam inseguros, divididos entre o que é certo e errado, o que é bom e mau. Por medo de estar educando mal, muitas vezes eles ficam divididos, sem saber se devem optar por uma disciplina rígida ou outra sem limites. Mas, afinal, como agir? Como educar colocando o “freio” necessário sem ser autoritário?

Sem medo de dizer “não”

Temos visto cada vez mais crianças cheias de vontades, exigentes, mandonas, que chegam a bater nos pais e, muitas vezes, até nos educadores, a fim de conseguir o que querem.

Nos anos sessenta, surgiu a idéia de que “é proibido proibir”. A TV, o rádio, as revistas, os jornais, enfim, os meios de comunicação continuam reforçando essa idéia do “tudo pode”. Muitas vezes eles usam termos da psicologia de forma exagerada e sensacionalista, como “essa repressão deixará traumas para a vida toda”.

Com medo de serem muito rígidos e prejudicarem o desenvolvimento da criança, muitos pais evitam a todo custo dizer “não”, isto é, acabam por não colocar limites no comportamento das crianças. Deixam de ser espontâneos, ficam o tempo todo pensando se isso ou aquilo vai traumatizar seu filho. Dessa forma, a criança não aprende quais são as regras, o que é certo e errado na sua sociedade. Ou melhor, é educada para fazer o que quer, sem respeitar o limite das outras pessoas.

O fato de trabalhar muito e permanecer pouco tempo com a criança pode acentuar esse comportamento dos pais, de deixar a criança fazer tudo. Eles ficam com sentimentos de culpa, especialmente as mães. Receiam decepcionar a criança e, por isso, evitam dizer não, deixando que elas se comportem da forma que quiserem. Ao agir assim, eles impedem que ocorram situações em que a criança possa aprender a tolerar frustrações e estabelecer uma relação de respeito com as pessoas.

Entretanto, ao invés de prejudicar, limites claros e que tenham sentido ajudam a criança a saber como agir. São de fundamental importância para sua educação pois, baseada neles, ela aprende o que se espera dela e o que ela pode esperar dos outros. Isso traz uma sensação de segurança à criança, mesmo quando ela aparenta discordar do limite dado.

Questão de autoridade ou autoritarismo?

Colocar, de forma clara, limites que tenham sentido não significa gritar, falar de modo grosseiro ou pôr de castigo. Tem autoridade aquela pessoa que age com lógica, com coerência. Aquela que dá ordens com um tom de voz que não agride. Que explica com firmeza os motivos pelos quais está sendo colocado o limite. Ser firme não quer dizer ser autoritário.

Autoritário é quem não explica o motivo do “não”. Quem parte para a violência. Quando o pai (ou a mãe) autoritário bate, ele mostra que já perdeu o controle da situação. Depois, geralmente sente culpa e quer compensar o filho. Isso deixa a criança confusa, pois vê o pai muito bravo e, logo em seguida, querendo agradar.

Os limites que os pais colocam devem estar relacionados com o comportamento inadequado do filho. Na medida do possível, não devem se relacionar com o fato de o adulto estar de bom ou mau humor.

Outra forma de ser autoritário é dar pouca ou nenhuma liberdade à criança, nunca permitir que ela se suje, que faça barulho ou bagunça. Na verdade, a criança aos poucos deve ir aprendendo que tudo tem hora (hora do almoço, hora de brincar, de dormir…) e lugar (por exemplo, ela pode brincar em determinados lugares da casa, fazer sua bagunça, contanto que depois arrume).

Um jeito mais disfarçado de ser autoritário é ser afetivo com o filhoapenas quando ele se comporta bem. Quem é assim geralmente ameaça não gostar do filho quando ele faz algo errado. Já pensou como deve ser horrível crescer ouvindo: “Se você fizer não gosto mais de você”?

Quando começar a colocar limites

Ao nascer, a criança passa a fazer parte de determinada cultura e, à medida que cresce, vai aprendendo os valores e regras específicos de sua comunidade. Por exemplo: se observarmos a educação de crianças em uma aldeia indígena, veremos que existem muitas diferenças em relação à forma como as crianças em nossa cultura são educadas.

Os valores e as crenças sobre o desenvolvimento infantil variam, também, de família para família; cada família tem sua forma de educar e passar seus valores para as crianças. Com relação aos limites, isso também acontece. Desde o seu nascimento, a criança passa a fazer parte dos costumes e da rotina daquela família. Por exemplo: algumas famílias organizam a alimentação do bebê seguindo com precisão os horários estabelecidos pelo médico, outras tomam como base o choro do bebê… A criança vai aprender a organizar seus horários de alimentação de acordo com a rotina familiar.

Podemos observar isso em todos os outros aspectos da educação infantil. Sendo assim, desde de bebê a criança já esta sendo trabalhada com relação aos limites e regras de seu meio social. Uma organização da rotina da criança a educa sobre os momentos em que ela  pode ou não fazer coisa ou outra. Famílias que têm o seu dia-a-dia muito desorganizado terão mais dificuldade de colocar limites para seus filhos pequenos. A organização do tempo e do espaço físico da criança lhe permite entender os limites e desenvolver autonomia, aprendendo a agir no mundo de forma a encontrar o equilíbrio entre o que ela quer fazer e as regras sociais.

Entretanto, devemos ressaltar que a forma de trabalhar essas regras varia também de acordo coma faixa etária da criança. É interessante que a criança receba o limite de acordo com sua idade. A maneira como se explica o motivo do “não” muda conforme o seu desenvolvimento emocional e intelectual.

Além disso, o que a criança não pode fazer, em uma certa idade, poderá fazer em outra. À medida que a criança se desenvolve, aumenta sua capacidade para compreender quais são as consequências do que ela faz. Então, o fato de poder decidir se deve ou não fazer algo, ou seja, saber qual é o seu limite, vai fazendo com que ela se torne responsável pelo que faz.

DOSES DIÁRIAS DE LIMITES

Mexendo em tudo

 Quando a criança começa a andar, sente-se dona do mundo, quer mexer eme tudo. É hora de mostrar-lhe que ela não pode mexer em alguns objetos, pelo menos em quanto ela não souber utilizá-los. Assim, é importante definir para ela: em que ela pode mexer, em que não pode e em que só pode quando está com adulto. Sempre que ela insistir em mexer onde não pode, é preciso dizer “não” com firmeza, porém evitando ficar irritado.

Como a criança é muito curiosa, procure prevenir e evitar problemas, tire do alcance dela objetos que lhe oferecem perigo. É comum observarmos pais e educadores tendo longas conversas, com crianças com menos de três anos, sobre os motivos e conseqüências de suas ações. Porém, nessa fase elas ainda Não conseguem entender isso. Assim, uma mensagem curta, com um tom de voz firme, é mais eficiente.    

Batendo nos pais e educadores

Geralmente a criança começa a bater nos pais e educadores como se fosse uma brincadeira. Aos poucos ela vai percebendo que pode chegar a machucá-los. E percebe que pode ameaçar bater quando um deles não faz o que ela quer, na hora em que ela quer.

É importante ensinar à criança que ela não pode bater. E que os pais e familiares não vão permitir que ela faça isso, que vão segurá-la se for preciso. Com crianças um pouco mais velhas, podemos dizer que compreendemos sua raiva, mas que ela precisará aprender outras formas de lidar com sua emoção.

Na creche, o educador também deve colocar limites, não deixando a criança bater nele. Uma boa maneira é explicar para ela que: “Assim como não bato em você, você não vai bater em mim”.

Uma situação delicada pode ocorrer se os pais e familiares deixam a criança bater neles e o educador não deixa, colocando limites. O contrário também pode acontecer, quando os pais dão limite e o educador deixa a criança fazer tudo, inclusive bater. Nesses casos, é preciso que os pais e educadores conversem e temem juntos tratar a criança com carinho e firmeza.

Birras e choros

Quando a criança não consegue o que quer, muitas vezes começa a chorar ou fazer birras. Esse comportamento é natural, mas, quando acontece muitas vezes seguidas, é sinal de que a criança não esta encontrando outras formas de se comportar. É preciso ajudá-la a encontrara novas maneiras de se expressar para que não se comporte mais assim.

A birra e o choro normalmente são causados por uma frustração  naquele momento. Quanto mais birra a criança faz, mais nervosa ela fica. Além disso, a criança se acostuma a fazer birra e a chorar, e quanto mais ela faz birra e chora, fica mais difícil conseguir parar.

Não existe receita para acabar com as birras e o choro. Os pais e educadores muitas vezes ficam nervoso, o que pode piorar o comportamento da criança. Mas quando eles conseguem observar bem a situação, vão descobrindo o que fazer. Eles podem ignorar o acesso de birra e deixar a criança parar sozinha, quando se acalmar. Mas outras vezes é preciso confortá-la, como por exemplo: molhando seu rosto, oferecendo-lhe água, dando-lhe um forte abraço, e, o mais importante, dizendo-lhe claramente que aquele comportamento dela não vai mudar sua decisão.

Quando a criança já fala bem e seus pais e educadores dão espaço para que se expresse, ela não precisa mais fazer birra. Ela conversa e negocia o que pode fazer, os seus direitos, e o que ela deve fazer, os seus deveres.

Parece simples lidar com essas situações. Mas só quem passou por elas é que sabe o quanto é importante ser sensível para entender o que a criança está querendo dizer com esses comportamentos e o que ela é capaz de entender com nossos limites.

Na creche, em especial, o educador deve ser sensível e atento às diferenças. Cada família tem seus valores e costumes. Cada uma tem sua forma de educar os filhos e de julgar a forma do educador da creche. É preciso que pais e educadores troquem informações para não haver mal-entendidos.

Afinal, família e creche não querem que as crianças precisem fazer birra. Para isso, as crianças devem ter as regras bem marcadas e espaço para se expressarem. E os pais e educadores precisam trabalhar em conjunto.   

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