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O DIREITO DE CHORAR

Adaptado de Escola de Pais, de Luís Lobo, por Lea Maria Mayon
Berçário

Chorar é um direito do bebê que os adultos não entendem. É, provavelmente, o mais desrespeitado de todos, provocando, inclusive, agressões injustificáveis.

O choro é a primeira  linguagem do recém-nascido e a sua única forma de comunicação oral. As pesquisas a respeito ainda não estão muito adiantadas porque é uma linguagem que dura muito pouco tempo, embora a cada dia nasçam novos bebês que sempre vão usar essa mesma linguagem ainda incompreendida pelos adultos.

A Dra. Dayse Campos passou a gravar o choro dos bebês na creche em que trabalhava e a registrar em que condições as crianças choravam. Ela ainda não terminou sua pesquisa , mas determinou que não há dúvida sobre o valor do choro como linguagem. Há um choro de desconforto, outro de fome, um choro de susto, outro de medo, um reclamando de  abandono, outro de calor, como outro de frio, um de dor e até um de manha.

Curiosamente, quando a criança ouve o próprio choro, sua ansiedade aumenta e ela chora mais forte, a não ser quando é confrontada com o choro de manha, que faz com que ela pare de chorar.

Muitas mães conseguem reconhecer, pelo choro, o que aflige a criança, distinguindo alguns dos principais motivos que fazem o filho chorar. Mesmo para as que não têm um ouvido tão apurado, o choro funciona (e deve funcionar) como um alarme, como um protesto do bebê. É preciso procurar a causa do choro, dando atenção à criança. E entender que ela tem um motivo para chorar.

Também é importante lembrar que o choro é a principal causa de violência física contra os bebês. Uma pesquisa sobre violência familiar confirma: o choro noturno é a principal causa de agressão a recém-nascidos e bebês com menos de um ano.

O bebê chora mais porque o choro é, praticamente, a única maneira que ele tem para expressar-se. Normalmente, quanto mais a criança cresce, menos chora, o que não quer dizer que deixe de chorar quando começa a falar e comunicar-se melhor. Crianças maiores também choram, porque o choro é a maneira mais sadia de expressar suas emoções de dor, mágoa, frustração, alegria e amor.

Chorar é bom, chorar faz bem, chorar é uma reação normal. No entanto, quando a criança chora, parece provocar no adulto o desejo urgente de fazer parar o  choro imediatamente. É como se o choro fosse, ao mesmo tempo, um alarme incômodo e uma crítica sonora à falta de cuidado dos pais ou daqueles que dela cuidam.

O bebê tem sempre um bom motivo para chorar, mas algumas vezes, é difícil identificar o  motivo do choro, que nem sempre é provocado por desconforto físico. Bebês e crianças pequenas choram de susto, de medo, de dor, por fome, calor, frio, cólica, desconforto, mas também choram por se sentirem abandonados, desamparados, por causa de um pesadelo, por angústia, por se sentirem ameaçados e até por causa de cansaço. O choro serve como válvula de escape quando sua ansiedade está muito alta. A tal ponto que, se essa válvula não funciona e se a criança fica impedida de chorar (por medo dos pais, por exemplo), isso fará muito mal a ela, tanto do ponto de vista físico quanto do ponto de vista psicológico.

Também não é bom, para a criança mais velha, ser levada a conter o choro, porque”não foi nada”, ou porque “menino não chora”, ou ainda porque “ele está muito grande para chorar”. Os pais podem ficar aliviados porque a criança parou de chorar; e a criança? Ela não teve alívio com o choro e, pior ainda, não conseguiu compreensão nem apoio.

Quando alguém critica uma criança por chorar, sem apoiá-la, ela percebe que os pais não gostam que ela demonstre seus sentimentos. Como criança quer e precisa ser apoiada pelos pais, procura esconder seus problemas e não chorar. Depois, quem pode reclamar da falta de diálogo e dizer que “meu filho esconde tudo de mim”?

Se você não sabe porque seu bebê está chorando, comece por apoiá-lo. Amor e compreensão trazem segurança e conforto. É por isso mesmo que um simples beijo, muitas vezes, é suficiente para fazer passar a dor ou o choror.

Recém-nascidos e bebê não fazem manha ou birra, que é o choro mais irritante. Mas quando não se consegue identificar o motivo do choro, o importante é manter o controle, dar apoio à criança e tentar desviar a atenção dela.

Gritar ou castigar um bebê é uma covardia que só serve para fazer com que a criança chore ainda mais, para aumentar a tensão e estragar as relações entre os adultos e a criança.

O choro merece respeito, principalmente o da criança. É uma forma natural de expressão e tem uma função importante no equilíbrio da pessoa.

É curioso que, se o bebê nascesse sem saber chorar, teríamos que ensiná-lo, porque chorar é imprescindível para a sobrevivência da criança.

No livro de ficção científica intitulado “As crianças que não choravam”, Eil Anderson conta a história de uma viagem espacial e de crianças clonadas para povoar e colonizar o planeta Terra II. O problema é que elas não têm a capacidade de chorar e, por isso, uma a uma, elas morrem.

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